O programa premiado Caminhos da Reportagem da TV Brasil, emissora pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), apresentou, no dia 30 de março a edição “Ultraprocessados na mesa dos brasileiros” que abordou a origem dos produtos, como identificá-los e as consequências para a população ao consumi-los.
Desde os anos 1980, o consumo de ultraprocessados pelos brasileiros mais que dobrou, passando de 10% para 23% do total de calorias ingeridas na alimentação. De acordo com dados internacionais, esse fenômeno não ocorre apenas no Brasil. Pesquisadores do mundo inteiro tem se debruçado a respeito do tema, mas o brasileiro Carlos Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), é uma das principais referências.
O especialista e a sua equipe desenvolveram a classificação “NOVA” que organiza os alimentos em quatro grupos: (1) alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, arroz ensacado, feijão ensacado; (2) ingredientes culinários processados, como azeite, manteiga, sal; (3) alimentos processados, a exemplo de milho em lata, sardinha em lata, pão de padaria; e (4) alimentos e bebidas ultraprocessados, como bolachas recheadas, achocolatados de caixinha, refrigerantes e bebidas açucaradas.
Um levantamento conduzido pela Fiocruz Brasília e pelo Nupens indica que o consumo de produtos ultraprocessados é responsável por um custo de mais de R$ 10 bilhões à saúde e à economia no Brasil. Segundo o pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz Brasília, estudos mostraram que até 57 mil mortes ao ano poderiam ser evitadas se o consumo de ultraprocessados fosse eliminado.
Reforma na regulamentação
A última Reforma Tributária foi publicada em dezembro de 2023, mas a transição começou neste ano e vai até 2033. Os produtos ultraprocessados ficaram de fora do imposto seletivo e não estarão sujeitos à cobrança criada para desestimular o consumo de itens nocivos à saúde ou ao meio ambiente. Apenas as bebidas açucaradas, como os refrigerantes, receberam a taxa extra na reforma.
Kelly Santos, coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição na Secretaria de Atenção Primária e Saúde do Ministério da Saúde, explica que no novo desenho fiscal do Brasil, um conjunto importante de alimentos saudáveis terão alíquotas zero de imposto e os alimentos considerados não saudáveis terão alíquotas de imposto maior.
Sobre as bebidas açucaradas, a coordenadora conta que o país precisa ainda aprovar uma lei complementar para definir a alíquota de imposto que tornará o refrigerante mais caro. “É uma medida já aplicada em outros países, como México e Chile, que nos inspiram a desenvolvê-la aqui no Brasil também”, diz.
De olho na publicidade e na alimentação infantil
Outras medidas para tentar frear o crescimento do consumo de ultraprocessados são educação e estratégias regulatórias de publicidade. A diretora executiva da organização ACT Promoção da Saúde, Paula Johns, lembra que impor limites na publicidade do cigarro foi uma estratégia bem-sucedida. “Você vê aqueles biscoitos recheados com várias alegações de que eles têm vitaminas. Então, tem todo um contexto de promoção desses alimentos que cria uma impressão de que eles são muito bons”, afirma.
A chefe da área de Saúde e Nutrição do Unicef Brasil, Luciana Phebo, ressalta que o problema é ainda maior na vida de uma criança. “O desenvolvimento do sistema nervoso, imunológico, digestivo, enfim, de todo o corpo, das suas dinâmicas. Ser desde cedo afetado por ultraprocessado vai levar esse corpo a muitas outras doenças crônicas”, afirma.
O estudante Luan Bernardo Marques Gama tem 13 anos. Por conviver com asma, ele faz acompanhamento no Hospital da Criança em Brasília. Há dois anos, o adolescente desenvolveu pré-diabetes e foi encaminhado ao programa de Atenção à Criança e ao Adolescente com Sobrepeso ou Obesidade da instituição. “Eu era tipo uma formiga. Era bala, chocolate, presunto, suco de caixinha, refrigerante, aqueles biscoitos”, lembra.
A mãe de Luan, Cecília Marques, conta que ficou em alerta quando ele desenvolveu pré-diabetes, ela se sentiu mal com hipertensão e o pai do adolescente quase teve um infarto. Com a ajuda da nutricionista do Hospital da Criança, a mãe adotou novas medidas. “As compras são um processo dessa educação nutricional, leitura de rótulo, ver também que a criança consegue fazer esporte. O Luan aderiu super certo. Ele demorou apenas um ano dentro do programa e recebeu alta”, conta a nutricionista Ana Rosa da Costa.
Ficha técnica
Reportagem: Flavia Peixoto
Produção: Claiton Freitas
Apoio à produção: Carol Oliveira, Cleverson Amaro (TV Cultura Pará) e Vitor Abdala
Produção de imagens: Claiton Freitas
Reportagem cinematográfica: André Rodrigo Pacheco, Rogerio Verçoza e Sigmar Gonçalves
Apoio à reportagem cinematográfica: André Mardock (TV Cultura Pará), Jorge Brum, Sandro Tebaldi
Auxílio técnico: Alexandre Souza, Edivan Viana, Jairom Ferreira, Marcelo Vasconcelos, Tiago Pinto
Edição de texto: Flávia Lima
Montagem e finalização de imagem: André Eustáquio
Arte: Aleixo Leite, Caroline Ramos e Wagner Maia
Sobre o programa
No ar desde 2008, o Caminhos da Reportagem é uma das produções jornalísticas brasileira mais prestigiadas pelo público e a crítica. No final de 2025, o programa da TV Brasil ultrapassou a marca de 100 prêmios recebidos. Os reconhecimentos atestam a relevância editorial, a qualidade jornalística e o compromisso da equipe com reportagens aprofundadas sobre os mais variados temas de interesse público.
Exibido às segundas, às 23h, o Caminhos da Reportagem tem horário alternativo na madrugada para terça, às 2h30. A produção disponibiliza as edições especiais no site http://tvbrasil.ebc.com.br/caminhosdareportagem e no YouTube da emissora pública em https://www.youtube.com/tvbrasil. As matérias anteriores também estão no aplicativo TV Brasil Play, disponível nas versões Android e iOS, e no site http://tvbrasilplay.com.br.
Fonte: Empresa Brasil de Comunicação | TV Brasil http://tvbrasi.ebc.com.br