A pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote – Volume 4”, divulgada pelo Idec (Instituto Defesa de Consumidores), identificou resíduos de agrotóxicos, sanitizantes e insumos farmacêuticos em produtos alimentícios ultraprocessados voltados a bebês e crianças de primeira infância. O estudo encontrou contaminação em produtos de marcas amplamente consumidas no país e acendeu um alerta sobre a exposição precoce de crianças a substâncias químicas potencialmente nocivas.
O relatório analisou 12 produtos comercializados no Brasil, entre fórmulas infantis, compostos lácteos, cereais e engrossantes, e encontrou resíduos químicos em cinco deles. Segundo o Idec, a ausência de limites máximos específicos para resíduos de agrotóxicos em ultraprocessados infantis representa uma grave lacuna regulatória e deixa pessoas consumidoras especialmente vulneráveis sem proteção adequada.
Entre os produtos com maior número de resíduos detectados está o Mingau Multicereais Nutribom, da Nutrimental, que apresentou sete substâncias diferentes, entre elas glifosato, glufosinato, bifentrina, deltametrina e tebuconazol. Também foram encontrados resíduos no Cereal Infantil Mucilon Milho, da Nestlé, e em compostos lácteos das marcas Nestlé e Piracanjuba.
Pela primeira vez na série “Tem Veneno Nesse Pacote”, o Idec identificou resíduos de sanitizantes utilizados na higienização industrial, como BAC, BAC-C12 e BAC-C14. Segundo o relatório, a presença dessas substâncias pode indicar falhas nas boas práticas de fabricação e preocupa porque não há parâmetros seguros estabelecidos para ingestão humana.
“O discurso de saudabilidade dessas embalagens contrasta com a presença de resíduos químicos em produtos destinados justamente à população mais vulnerável. Pais e responsáveis acreditam estar oferecendo alimentos seguros, mas encontram um cenário de baixa transparência e fragilidade regulatória”, afirma Igor Britto, diretor executivo do Idec.
Os produtos foram adquiridos na cidade de São Paulo, em maio de 2025, e analisados por laboratório credenciado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e utilizado pela própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em programas oficiais de monitoramento. O método empregado tinha capacidade para detectar 653 tipos diferentes de resíduos químicos.
O relatório também chama atenção para o avanço do consumo de ultraprocessados na infância, em descompasso com a orientação do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, para que bebês e crianças pequenas não consumam esse tipo de produto. Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI 2019) citados pelo Idec mostram que 80,5% das crianças brasileiras entre seis e 23 meses consumiram algum alimento ultraprocessado em 2019.
Além de cobrar a criação de limites máximos de resíduos para ultraprocessados infantis, o Idec defende a inclusão desses produtos no Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) e a implementação efetiva do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara). Para a entidade, o avanço do consumo de ultraprocessados na infância exige respostas regulatórias urgentes do poder público.
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