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24 de Maio de 2017

Em comemoração ao Dia Nacional do Café, disponibilizamos o EDITORIAL

CAFÉ: RUMO À MAIORIDADE NA QUALIDADE.

Getúlio Vargas certa vez disse que "o ideal é a alma de todas as realizações". Este mesmo Getúlio que incluiu o Brasil no mapa da responsabilidade social, com a criação da Consolidação das Leis Trabalhistas e que autorizou a queima de café, para auxiliar na regulação do mercado brasileiro, pós crise econômica de 1929, numa época em que o finado Sr. Ernesto Illy ainda era pequenininho e o negócio do café expresso, uma idealização da família dele, restrita ao território italiano.
A queima do café deveria ter ensinado a cafeicultura brasileira, já na década de 1930 e 1940 a buscar prospectar o mercado internacional da mesma forma que os colombianos. Enquanto no Brasil surgia o Departamento Nacional do Café, que mais tarde deu origem ao extinto Instituto Brasileiro do Café, a Colômbia criava a lenda "Juan Valdez". Ambos projetos, diga-se de passagem, são contemporâneos. Enquanto crescíamos em quantidade, eles cresciam em qualidade e viraram grife reconhecida, inclusive como origem no contrato da antiga CSCE (Coffee, Sugar and Cocoa Exchange), atual ICE (Intercontinental Exchange).
Surge o papel da personagem emblemática encantadora, que conduz o consumidor pela mão à luta imaginária contra as Farcs e os narcotraficantes para salvar vidas de inocentes. O poder de Juan Valdez... Mais do que uma bebida exótica, o café, nesse caso é uma bebida com fortíssimo apelo social. O mesmo equivale para os cafés cultivados na América Central, em vários países dos continentes africano e asiático. Cafés sociais, exóticos, geram comoção e por conseguinte, mercados consumidores cativos, cônscios de que o seu prazer salva vidas anônimas, distantes do seu mundo situado normalmente em países desenvolvidos.
A sintonia fina do Brasil com essa demanda mundial começa a ganhar impulso há cerca de 17 anos atrás, quando a extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC) expôs as fragilidades do setor ao mundo, pela perda da paternidade, obrigando-o a optar pela qualidade. Os saltos registrados ao longo de todo esse tempo, conduziram
o país a um patamar impressionante de recuperação, especialmente do seu índice de consumo interno, tornando-o um ativo difusor da causa da qualidade no mundo. Um reflexo dessa recente história deu-se pela chancela da Organização Internacional do Café ao Programa Café e Saúde e mais recentemente pela ativa participação do país como ator na implantação Código Comum para a Comunidade Cafeeira, também conhecido como 4C's, a partir do ano passado, demostrando um compromisso nacional com a qualidade.
Há muitas vertentes a serem discutidas quanto às modificações registradas nos últimos anos, mas o 4C é um  arco significativo no design do novo mercado cafeeiro global que se desenha. Embora seja um padrão internacional bastante criticado, a idéia da planificação da qualidade é atrativa, já que no médio prazo, aquilo que conhecemos como qualidade técnica da bebida hoje (cafés livres de grãos pretos, verdes e ardidos, tipo 6 para melhor (86 defeitos, padrão BMF), bebida dura e ou superior), deixará de ser um diferencial, para se tornar uma obrigação. O mercado caminha para essa realidade, à medida que a grande indústria de café internacional tornou-se o principal demandante desse tipo de certificado de café, já que ele presta-se de contraponto à pluralização de programas de certificação no mundo, que muitas vezes criam dificuldades para esses mesmos fabricantes, que obrigam-se a ter  em suas embalagens entre 03 a 08 tipos de certificados diferentes, dependendo do mercado consumidor onde atuam. Isto posto, torna- se necessária a disposição de uma breve conversação sobre possibilidades de cenários para a cafeicultura.
O 4C portanto, é o ponto de partida para a análise apresentada a seguir.
 
Mercado Mundial
A previsão para o ano safra 2008/2009 é a colheita entre 123 e 126 milhões de sacas, de acordo com a Organização Internacional do Café, com projeção de consumo para o ano de 2008, prevista entre 123 e 125 milhões de sacas, caso o crescimento do consumo mundial mantenha-se na casa dos 1,5 a 2% ao ano. Esse perfil de escassez da oferta de grãos, por sua vez, impacta diretamente na elevação do preço médio mundial da bebida. De acordo com a Associação Alemã de Cafés (Deustcher Kaffeeverband), o preço médio do quilo do café torrado na União Européia foi de • 7,40, assumindo uma tendência altista de até 5% para o ano de 2008, impulsionadas pelas altas do preço dos contratos de café negociados nas bolsas de Nova Iorque e Londres (em torno de 20%), conforme aponta informações da Illy Café.
A demanda por grãos, combinadas por preços mais atrativos, ainda que se considere a volatilidade dos contratos negociados na Bolsa nova-iorquina, cuja média acumulada em 2007 foi de 2,42%, de forma alguma altera a tendência mundial de busca de novas fronteiras de produção de cafés, com vistas a minimização de preços da matéria-prima utilizada na formação de blends industriais. Como a oscilação do preço do café industrialização é praticamente descolada do preço do café verde no mundo, o mercado consumidor, principalmente em mercados desenvolvidos, tem possibilidade de crescimento projetado estruturado: média anual variando entre 1,5 e 3% ao ano. Se por um lado a produção no Vietña já assusta, em decorrência dos preços praticados na venda de seus cafés, pode-se afirmar que a inserção de investimentos em território africano, especialmente em países produtores do Leste Africano, podem assustar ainda mais. Ao que parece, a variável produção de cafés de qualidade nestes territórios, será nivelada por meio da adoção do Código Comum para a Comunidade Cafeeira, programa certamente aceito pela Comissão da Agricultura da União Européia, uma vez que a Organização Internacional do Café situase em território europeu e é membro efetivo da FAO. Se tal premissa se confirmar, a ampliação dos investimentos estrangeiros nesses países continuará a ganhar impulso, já que a idéia de se desvincular do Brasil, como fornecedor de café, é uma idéia que apetece um conjunto significativo de traders internacionais. Explico: cafés produzidos em países paupérrimos, com graves problemas sociais, tem apelo fortíssimo junto aos conscientizados consumidores da Europa, Estados Unidos, Canadá e Japão. Não apenas pela questão social propriamente dita, mas pelos aspectos ambientais e exóticos contidos no produto.
Além disso, a proximidade dessas regiões produtoras, com grandes mercados consumidores, tem estimulado também o investimento industrial. O recente anúncio de instalação de uma fábrica de produção de café solúvel na Rússia, realizado pela Kraft Foods, demonstra uma tendência da busca natural pela proximidade entre produtores e consumidores. A Rússia, ressalta-se, é o principal mercado consumidor de café solúvel do planeta e principal cliente do solúvel brasileiro.
O 4C, ressalta-se, resolve um problema da indústria global, a medida que seu código de conduta prevê as sustentabilidades social, ambiental e econômica, que são elementos de exigência para consumidores adquirirem produtos nos principais mercados. Ele preserva a prática da commoditização, sem deixar de privilegiar aspectos relevantes para os consumidores. O efeito no Brasil, quando se refere ao mercado interno, nesse sentido, tende a demorar um pouco mais a se efetivar. Sobre o mercado nacional, disserta-se a seguir.
 
Mercado Nacional
O Brasil continua a manter a vice-liderança mundial no consumo per capita, com 17 milhões de sacas consumidas, de acordo com dados da OIC, sendo a bebida de pelo menos 91% dos brasileiros, conforme apontou a última pesquisa realizada pela InterScience.
Com uma tendência de alta de 4% no segmento de cafés tradicionais e de 20% no segmento de cafés especiais, o país confirma-se como um oásis para o emergente e crescente negócio das cafeterias, já que o principal responsável por esta expansão que se confirma ao longo dos últimos três anos, é a introdução do novo momento de consumo no cotidiano do cidadão brasileiro: o consumo fora do lar.
Esse modelo vem acompanhado de uma outra novidade: o nível de conscientização e aprendizado do consumidor brasileiro em relação à qualidade do café e respectivamente, sobre a questão dos certificados e seus inúmeros significados.
Esse modelo, que inicia na décadade 1980 com o Selo de Pureza, ganha força, na década de 1990, com a chegada dos primeiros cafés diferenciados ao mercado, via a italiana Illy, pioneira na comercialização de cafés especiais no país.
A empresa, é tida como pioneira tanto nessa revolução silenciosa do consumo quanto na difusão de padrões de exigência na produção de café, que até hoje impactam positivamente no campo. Na década de 2000, os investimentos em marketing começaram a ganhar corpo, com o desenvolvimento da primeira segmentação de regiões produtoras de café no país: 14 regiões, 14 sabores diferentes. Esse modelo, combinado com os investimentos no programa Café e Saúde, a inserção gradativa do país no mercado internacional de cafés industrializados e respectiva elevação da participação do país na transferência de know-how via a OIC, fomentaram processos de modificação importantes na cultura da qualidade que nos últimos anos tem ganhado força no mercado nacional e tem moldado ações institucionais importantes. Cita-se como exemplo os recentes esforços da indústria de café nacional na área de certificação, extensível inclusíve à pontos de vendas (cafeterias e ou casa de cafés), a criação de identidades geográficas (Cerrado e Carmo de Minas (em andamento)), a valorização de profissões estratégicas na cafeicultura como provadores e baristas, ainda que estes últimos ainda não seja reconhecidos pela legislação trabalhista nacional, harmonização da padronização brasileira e americana na área de cafés industrializados e por último, gradativa expansão da participação do país em eventos internacionais, com vistas a promoção da marca Cafés do Brasil.
Embora todo esse aparato de ações seja fundamental, verifica-se que a falta de um planejamento estratégico para o setor. A cafeicultura detém uma importante conquista em seu currículo, que é a criação do Conselho Deliberativo de Política Cafeeira (CDPC), cuja função é cuidar dos interesses de toda a cadeia, com vistas à promoção de sua competitividade global.
Infelizmente, observam-se um conjunto de fractais na tomada de decisões, em contraponto à demanda de um planejamento estratégico holístico. É cônscio afirmar que coordenar uma cadeia, que tem relevância estratégica não é fácil.
Pelo contrário, é desafiador, a medida que se compreende que o papel desse conselho é o de assessorar o Estado Brasileiro, na produção de um aparato legal desenvolvimentista, convergente com as tendências de mercado.
Nas mãos do legislador está a pena, capaz de revolucionar a vida. É o exercício nobre da política, despida das suas dores morais, que beneficia o cidadão e respectivamente, exalta a beleza do Estado e da democracia.
Se a cafeicultura brasileira não dispor desses bons instrumentos legais, certamente não sobreviverá frente à globalização. Não será o aquecimento que extirpará o setor.
Será a economia internacional. Explico: o primeiro tem impactos previstos para daqui um século, o segundo, para daqui uma década. Depende do desempenho das novas áreas produtivas, conforme exposto acima.
A questão da dívida do segmento produtivo nesse sentido, também é uma preocupação, pois quem deve, não tem capacidade de investimento nem tampouco de resistência frente às intempéries mercadológicas. O setor cafeeiro
deveria lutar pela anistia da dívida e o Governo Federal, numa ação inédita, deveria obrigar todos os produtores a fazerem um intensivo de administração, com ênfase em cooperativismo e estratégias de negociação em bolsas de mercadorias, antes de liberar novos financiamentos. Mesmo que isso significasse sair do mercado de café
por um ano, para colocar a casa em ordem, para acabar definitivamente com essa mácula que arrasa com a cafeicultura nacional: o endividamento.
Nesse aspecto, o Estado teria que agir de forma radical e dar uma bolsa de sustentação para as famílias de cafeicultores durante o programa de treinamento, como acontece com os pescadores na época de Piracema. Graças à essa concessão do Estado, a reprodução de muitas espécies de peixes brasileiros voltaram a povoar os rios brasileiro.
Ao mesmo tempo, a cafeicultura nacional lida com outro desafio: garantir a nacionalidade do café consumido em seu próprio território. Embora o país não autorize a importação de matériaprima, em razão de ainda não ter legislado sobre a questão das suas condições sanitárias, o Brasil importa café industrializado. O mercado consumidor brasileiro é pleno e crescente em razão de sua grande representatividade como produtor e principalmente, pelo seu parque industrial. Historicamente, não se pode negar que a indústria, na promoção do consumo de café do Brasil foi estratégica. E certamente continua a manter sua importância na conquista
da liderança per capita mundial para o território brasileiro. Explico: na mão da indústria está a força de vendas, a expertise na distribuição, a escala de produção e fundamentalmente, o capital privado, imprescindível para viabilizar os investimentos, com ou sem a participação do Estado.
Abre-se então, a vertente finalizadora dessa reflexão: a relação da cafeicultura com a diplomacia, apresentada a seguir.
 
A importância da diplomacia para o futuro da cafeicultura brasileira
Além da adequação do aparato legal brasileiro às novas tendências de mercado (modernização da
Classificação Oficial de Café do país, ampliação da legislação de cafés industrializados, por meio da inclusão de aspectos relativos à qualidade técnica do café, destinação obrigatória das cascas e paus para a produção de energia), há outro aspecto fundamental para o sucesso dos negócios do café no país: a construção de acordos bilaterais e ou multilaterais, que privilegiem a emersão de um mercado comum para cafés na América Latina. Não sou adepta à importação de cafés do Vietña, já que há um potencial de produção fantástico de café robusta por aqui. Mas sou favorável à importação de cafés de altíssima qualidade produzidos no continente americano.
Essa iniciativa, deveria independer da vontade setorial, uma vez que ela converge com um modelo unificador regional, defendido pelo atual do Governo Federal e ao mesmo tempo, valoriza o Brasil como liderança, inclusive na área do café em todo o continente. O recente embargo de cafés peruanos no Porto de Santos não deixou de ser uma certa afronta a esse desejo de uma América Latina unificada. Esse modelo unificador, deveria se fundamentar na adoção do 4C, como norma de referência para o trânsito de cafés na região, já que é o código de conduta aceito pela OIC e do qual o Brasil e Colômbia já são signatários. Favoreceria os negócios da indústria nacional e do segmento exportador, já que os blends de cafés verdes e industrializados poderiam sair daqui com as respectivas origens dos grãos reconhecidas, resguardadas em certificados e ou nas embalagens de cafés industrializados. Esse é um ideal de união alfandegária fascinante, que coroaria a maioridade da cafeicultura nacional sob a égide da qualidade, pois de forma alguma colocaria a produção nacional em risco e otimizaria a capacidade instalada brasileira, tornando-a, sem dúvida, uma plataforma global de cafés. Ao mesmo tempo, ela tem um apelo relacionado à paz: o Brasil teria pela primeira vez a possibilidade de contribuir economicamente para o desenvolvimento do campo em regiões submetidas ao narcotráfico e minimizar o drama de famílias que direta ou indiretamente se vêem obrigadas a "participar" das ações de guerrilha, para não morrer. Essa ação converge com os interesses da Organização dos Estados Americanos e o respectivo processo de criação do Conselho de Segurança Sul-Americano, proposto pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, à Secretária de Estado Americana, Condoleezza Rice, em sua última visita ao país.
Voltando à Getúlio Vargas, esse é o ideal a ser atingido da maioridade na qualidade: a cafeicultura como um vetor da paz, da união dos povos e da promoção da cidadania entre países irmãos. Algo digno para a festa de 21 anos de uma dama carinhosa, que silenciosamente ajuda a construir a riqueza deste nosso país de xícara em xícara, em casa, no escritório, nas cafeterias, nas solenidades, alegrando corações e inebriando espíritos, com o doce alvorecer da inteligência, em nossas mentes.
 
Mara Luiza Gonçalves Freitas, março de 2008.
Administradora, especialista em cafeicultura empresarial, mestre em administração, professoraadjunta
do departamento de Engenharia de Produção Agroindustrial, da Universidade Estadual de Mato Grosso e organizadora da coletânea "Por detrás de uma xícara de café".
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