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2 de Julho de 2015 - José Cezar Panetta

O FIM DOS ALIMENTOS?

Texto extraído do prólogo do livro "O fim dos alimentos", de Paul Roberts

A interrogação é nossa, mas o título original é afirmativo, convicto. Trata-se do título do livro de Paul Roberts, o mesmo autor de The End of Oil, que volta, agora, sua atenção "para a economia alimentar moderna e descobre que o sistema que deveria satisfazer a nossa necessidade mais básica está falhando". Neste novo livro, publicado pela Editora Campus/Elsevier (www.campus.com.br), com tradução de Ana Gibson, Roberts expõe as realidades econômicas subjacentes aos alimentos e mostra como o nosso sistema de produção, marketing e transporte de alimentos está ficando cada vez menos compatível com os bilhões de consumidores para os quais esse sistema foi feito para atender. No cerne de O fim dos alimentos encontra-se um triste paradoxo: o aumento da produção em grande escala, embora gere, atualmente, mais alimentos a um custo como em nenhuma outra época da história, chegou a um ponto de retornos perigosamente decrescentes. A tese do autor é que está no fim a forma de produção de alimentos como é conhecida hoje, alertando para a necessidade de decisões cruciais para que a humanidade possa sobreviver à mudança.                                                                               Já no prólogo do livro, a hipótese de Roberts é justificada sob três vertentes: 1 - O aumento exponencial da produção de alimentos foi conseguido através da aplicação de sistemas que, com o tempo, mostraram componentes capazes de agir contra si próprios, como é o caso das substâncias químicas empregadas para as operações de agricultura e pecuária em grande escala, que degradam, em certa medida, a capacidade produtiva dos sistemas naturais de produção. Tais sistemas, que garantem o abastecimento de alimentos de origem vegetal e animal, nas várias regiões do globo, criaram, por outro lado, oportunidades perfeitas e tornaram-se vulneráveis aos patógenos alimentares do tipo E.coli e Salmonella, bem como a variedades emergentes de novas enfermidades animais, como a gripe aviária e a encefalopatia espongiforme bovina. 2 - O avanço da tecnologia na produção de alimentos permitiu que se minimizasse o flagelo da fome em muitos países. Não obstante, mesmo nos locais em que a fome foi erradicada, as populações outrora famintas agora enfrentam as consequências da dieta moderna, como obesidade, doenças cardíacas e diabetes. E, mais: apesar de toda a produtividade conseguida, ainda um bilhão de pessoas em todo o mundo - uma em cada sete - continua com "insegurança alimentar" (eufemismo que o autor atribui a Washington), sendo que esse contingente aumenta cerca de 7,5 milhões por ano. 3 - A crise dos alimentos, cujo ápice se configura para meados deste século, é fundamentalmente econômica, mas não no sentido, hoje conhecido, em que as empresas operam visando lucro e os consumidores procuram o melhor preço. Não, "a crise é econômica no sentido de que nosso sistema alimentar só pode ser entendido realmente como um sistema econômico, que, como todos os sistemas econômicos, tem vencedores e perdedores, sofre instabilidade periódica e ocasionalmente profunda e é assolado pela mesma lacuna inerente e irredutível entre o que procuramos e o que, na verdade, é oferecido".
 Tudo parece indicar, na verdade, que a época dourada de produção dos alimentos está chegando ao fim ou, pelo menos, tem suas bases abaladas com bastante seriedade. Mas, o que está acontecendo? É possível acreditar-se que a expansão da indústria alimentícia, nos moldes conhecidos hoje, possa estar comprometida? Como o nosso sistema alimentar, sempre tão bem sucedido, ficou tão sobrecarregado? Afinal, o que está acontecendo com o nosso alimento e, o que é mais importante, existirão soluções práticas para recuperar o equilíbrio do sistema, antes de um comprometimento total?
 Como afirma o autor, "os problemas com o sistema alimentar moderno começaram, ironicamente, com o seu sucesso. Apesar de todos os benefícios da produção de alto volume e baixo custo, a capacidade de gerar fluxos enormes de alimentos a preços cada vez mais baixos também conseguiu prender os produtores em um círculo vicioso: quanto mais alimento eles produziam, mais alimentos precisavam continuar produzindo". O resultado de tal movimento, de aplicação tecnológica para diminuição de custo, eclode quase que invariavelmente na caída dos preços de mercado, o que obriga os produtores a uma nova onda tecnológica para compensá-los, e assim o ciclo vai se repetindo. Existem dezenas de exemplos desta ação nos últimos cinquenta anos, o que levou Willard Cochrane, economista da Universidade de Minnesota, a identificá-la como "espiral tecnológica" das cadeias alimentares. Na verdade, a espiral se aplica a qualquer problema da cadeia de abastecimento, que atualmente vai do fabricante de fertilizantes ao comerciante de mercadorias. O sucesso da atividade é determinado pela capacidade de cortar continuamente custos, o que, em geral, significa produzir quantidades cada vez maiores. Esse imperativo do volume, entretanto, tem um limite para os alimentos, pois os consumidores podem comprar DVDs ou tênis além de sua necessidade, mas não podem fazer o mesmo em relação aos alimentos que consomem, independentemente de quão barato se tornem. Obesidade é apenas um dos efeitos do modelo alicerçado em alto volume e baixo custo. Veja-se, além disso, a qualidade dos alimentos importados da China: as empresas alimentícias americanas estão tendo cada vez mais dificuldade para conduzir programas de segurança alimentar fortes nesse modelo de negócios baseado em custo e volume. Quando os programas de segurança falham e patógenos e outros contaminantes adentram a cadeia de produção e abastecimento, a própria estrutura da cadeia acaba garantindo que o surto se espalhe rapidamente.
"O sucesso, portanto, do setor alimentício moderno tem sido sua capacidade de fazer com que o alimento se comporte como qualquer outro produto de consumo." Para Paul Roberts reside aí o paradoxo da economia alimentar e a fonte da maioria de seus atuais problemas: "apesar de o sistema alimentar ter evoluído como qualquer outro setor da economia, o alimento em si não é fundamentalmente um fenômeno econômico. A produção de alimentos pode seguir princípios econômicos gerais de oferta e procura; pode realmente criar emprego, gerar receitas com comércio e lucros, às vezes consideráveis; mas o produto subjacente - o que comemos - nunca na verdade se conformou aos rigores do modelo industrial moderno. Fisicamente, o alimento é tão impróprio à produção em massa que foi necessário reengendrar as plantas e os animais para torná-los mais prontamente colhidos e processados (e até mesmo esses materiais atualizados continuam tão frágeis que têm de ser retificados com conservantes, flavorizantes e outros aditivos). Na mesma direção, os modernos métodos agrícolas e fabris acarretam custos "externos" tão grandes - do escoamento de agroquímicos às desigualdades da mão-de-obra barata, passando por um excedente asfixiante de calorias - que a longevidade do sistema no momento é seriamente questionável."
"Nos próximos quarenta anos, a demanda de alimentos aumentará vertiginosamente - porque a população global continuará crescendo e porque o mundo em desenvolvimento, onde se dará esse crescimento, continuará tentando seguir os padrões dietéticos ocidentais, especialmente o gosto pela carne. E, embora comer mais carne possa trazer melhorias à saúde em muitas nações pobres, as dietas mais ricas em carne também aumentam geometricamente a demanda global de alimentos, pois a carne é uma das formas menos eficientes de se obterem calorias (utilizam-se dois quilos de grãos para se obter meio quilo de carne, demandando, portanto, grande extensão de terra. Adicione-se a isso a nova demanda por grãos exigida pela indústria de biocombustíveis emergentes (que atualmente consome quase um terço de toda a oferta de milho dos Estados Unidos) e, de repente, não se tem mais os excedentes maciços que, por sinal, asfixiaram os mercados globais há décadas."
"A economia alimentar moderna é muitíssimo vasta e o debate acerca de seus problemas e seu futuro é deveras controverso para ser condensado em um único livro e há muitos elementos desse assunto crucial que eu simplesmente não pude incluir. Nem espero que todos os leitores concordem com a prioridade que dediquei às várias crises alimentares ou com o espaço que abrir a determinadas propostas; poucos campos estão evoluindo tão rapidamente quanto a tecnologia alimentar e a agronomia - uma realidade, ao mesmo tempo, enlouquecedora e animadora. Meu objetivo foi mapear os amplos contornos da economia alimentar moderna de uma forma que permita aos mais afetados por essa economia – os consumidores - entender como ela funciona, por que está fracassando e, sobretudo, conhecer as opções existentes para efetuar uma mudança concreta e duradoura."
J.C.Panetta,
maio de 2009 (Texto extraído do prólogo do livro O fim dos alimentos, de Paul Roberts, cuja tradução, de Ana Gibson, foi publicada pela Editora Campus/Elsevier, 2009)