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4 de Janeiro de 2016 - José Cezar Panetta

FORAM-SE DOIS IRMÃOS

Zander Barreto Miranda e Eduardo Batista Borges

Quem de longe observasse e não os conhecia, certamente pensaria que estivessem brigando. Porém, ao aproximar-se perceberia que tudo não passava de uma encenação franca e alegre de dois amigos sinceros, dois irmãos, que sentiam um prazer enorme por estarem juntos, por trabalharem juntos e, sempre que juntos, representavam uma disputa de ações divertidas, que não cansavam de repetir. Ao observador, agora emocionado, era patente e profunda a amizade que unia os veterinários Zander Barreto Miranda e Eduardo Batista Borges. Durante dezenas de vezes fui privilegiado como observador e testemunha dessas demonstrações de pura amizade entre estes dois caríssimos amigos e colegas que, pela força misteriosa do destino, nos deixaram em 2015: Edu, em 23 de novembro, em Macaé, RJ, e Zander, em 29 de dezembro, em Niterói, RJ.
 
O que também os unia, e sempre profundamente, era o objetivo comum de seu trabalho diário: ambos nutriam verdadeira paixão pela medicina veterinária e pela área de segurança dos alimentos e embora fossem diversos seus vínculos empregatícios, amiúde trabalhavam juntos em uma série de eventos e instituições, cujos objetivos, também comuns, contribuía para estreitar mais e mais a permanente e sincera amizade. A paixão pela profissão e pela área de alimentos guiava suas vidas em inúmeras missões, para a solução das quais se entregavam com ardor incomum e sobre as quais era constante o objetivo da comunidade, profissional ou em geral, ressaltando-se sempre a preocupação com o próximo, com o desprotegido, com quem precisasse de ajuda.
 
Assim, ambos foram presidentes e ocuparam diversos cargos da diretoria do CRMV-RJ, ambos exerceram variadas funções e a presidência do Colégio Brasileiro de Médicos Veterinários Higienistas de Alimentos, ambos lutaram bravamente para a coroação dos congressos latino americanos de higienistas de alimentos, ambos foram incentivadores declarados da divulgação da pesquisa em prol do aperfeiçoamento profissional, sendo que Zander, inclusive, integrou o comitê Editorial da revista Higiene Alimentar praticamente desde sua criação; ambos defenderam e honraram, com intensa emoção, a medicina veterinária, o papel do profissional na sociedade brasileira, a contribuição da profissão para a saúde da população, para a economia e para o desenvolvimento social do nosso País.        
 
Eduardo e Zander. O primeiro honrou o Ministério da Agricultura, da Pecuária e do Abastecimento, como fiscal federal agropecuário deixou sua marca como funcionário exemplar, como profissional abnegado, como líder em váriadíssimas missões. O segundo, projetou-se como o professor nato, que adorava o magistério, que sentia prazer em dialogar com seus alunos, para o qual cada projeto era um desafio, que ele abraçava com vigor e guiava seus discípulos pelas veredas da pesquisa científica e os fazia exultar com as discussões, os achados, as conclusões. Humildemente e através de extenso trabalho, conquistou os títulos universitários na Faculdade de Veterinária da UFF, submetendo-se a diversos concursos para a titularidade, nos quais recebeu variados elogios pelo seu substancioso currículo, conquistado-a com louvor em 2015, meses antes de nos deixar. O que tinham em comum era sempre o amor pela profissão e pela família, a compaixão pelo próximo, a consciência da cidadania, o espírito democrático, a convivência pacífica e justa do homem de bem.
 
Nestes primeiros dias, assalta-nos a ausência; atônitos, sentimos um nó na garganta e não sabemos o que fazer. Mais alguns dias e ficaremos machucados com a saudade, forte e dolorida. Parecerá tudo perdido, sem nexo. Só o tempo será capaz de nos consolar e nos mostrará que ficará para sempre e indelevelmente o exemplo de vida que ambos nos deixaram. Ficará para sempre o privilégio em tê-los como amigos, em trabalhar e conviver com eles. Para suas esposas, seus filhos, netos, para todos nós, colegas e amigos destes dois insignes profissionais e cidadãos, ficarão sua memória, seus pensamentos, tudo o que foram em vida.  Nada, ninguém, conseguirá apagar suas vidas. Tudo permanecerá em nossa memória, seus exemplos, seus desejos, seu modo de pensar, sua maneira de ser, sua amizade. Ou, como disse Santo Agostinho:
 
A morte não é nada.  Eu somente passei para o outro lado do Caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo. Me dêem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram.
 
Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador. Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.
 
Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim.
 
Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo. Sem nenhum traço de sombra ou tristeza. A vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio não foi cortado. Porque eu estaria fora de seus pensamentos, agora que estou apenas fora de suas vistas?


Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do Caminho…

Você que aí ficou, siga em frente, a vida continua, linda e bela
 como sempre foi.  (J.C. Panetta, 03/01/2016.)