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3 de Janeiro de 2012 - Alda Jorge Rodrigues Alvim

Evolução da alimentação humana: o tempo como fator determinante de escolhas alimentares.

Vol. 25, n. 196/197, maio/junho 2011

Evolução da alimentação humana: o tempo como fator determinante de escolhas alimentares.


Atualmente vivemos sem tempo. O crescimento economico e a aceleracao da producao sobrepuseram-se ao tempo, a um ritmo que impos velocidade no dia a dia. Vive-se num mundo desenhado para tornar tudo mais rapido. Rapidamente urbaniza-se, constroi-se, inventa-se, produz-se e serve-se tudo o que facilita a velocidade da propria producao. Numa sociedade onde o culto da velocidade domina as nossas vidas e onde a eficiencia e o topo da virtude, o Homem luta elas suas capacidades, oscilando entre o desejo do sucesso e o balanco da sua vida. A velocidade e no entanto um  paradigma no qual o tempo fica de fora. Nao e viavel estender o tempo que temos. Limitados as 24 horas do dia e  respeitando a socialidade, determinamos o tempo a dedicar a cada atividade diaria. Nesta perspetiva, o tempo da alimentacao minimiza-se, ignorando-se a cultura, as tradicoes outrora valorizadas e ignorando-se a essencia das necessidades fisiologicas e psiquicas humanas. E surgem as consequencias... Vivemos uma epoca de excessos: excessos alimentares, excesso de ofertas, excesso de peso corporal, excesso de importancia dada a imagem corporal, excesso de sedentarismo (que facilita o acumulo energetico corporal), excesso de desequilibrio, excesso de monotonia, excesso de sal, excesso de gorduras saturadas, excesso de acucares, excesso de doenca alimentar...excesso de falta de tempo para dedicar a alimentacao...Absorvidos nestes excessos e com o tempo “comprimido”, confundimo-nos nas tomadas de decisao que a sociedade nos impoe. Sob pressao, entre as inumeras direccoes a seguir, optamos pela solucao que serve melhor o tempo, ofuscando a consciencia do saudavel. Se o tempo e o solvente, os excessos sao o soluto nas nossas proprias solucoes. E saturamos, afogamo-nos nas nossas solucoes, sem tempo e espaco para respirar. E aqui que se manifestam as escolhas alimentares. Numa oferta ilusoriamente diversificada (tem-se varias apresentacoes de um mesmo alimento e nao uma real diversidade de alimentos), facil, pratica, apelativa, capaz de incutir prazer e frequentemente economica e excessivamente divulgada, acreditamos encontrar a resposta ideal. E acabamos fazendo escolhas que prejudicam o consumo dos alimentos que faziam parte da alimentacao “dita” tradicional. Uma oferta de alimentos sempre evolutiva, sempre “em dia”, facilita-nos com uma certa malicia as nossas escolhas. Esta oferta proporciona elocidade com o “turbo” capaz de criar a entropia ao nosso desempenho, limitado pelo tempo: um mercado de rua extenso e estrategico de snacks-bar, centros de fast-food e maquinas de alimentos; produtos gerados com novas tecnicas de conservacao e preparo facil; preparacoes e utensilios transportaveis, prontos a ingerir a qualquer momento sem a necessidade de manipulacao; venda em centros alimentares e compras on-line…tudo sempre disponivel e acessivel. Oferece-se linhas de produtos light e dieteticos; produtos milagrosos, destinados a perda de peso e a beleza corporal…todos divulgados e alegados ao publico, de uma certa maneira permissiva por parte do governo. Oferece-se prevencao, solucoes e remedios aos problemas de saude que a oferta excessiva de alimentos, ela mesma, causa, atraves da exploracao anarquica de fatos cientificos popularizados de forma duvidosa pelos meios de comunicacao social: bebidas energeticos, alegacoes a presenca e ausencia de substancias nutricionais especificas, alegacoes de saude, etc. As novas escolhas alteram a tradicao alimentar, mas acima de tudo, criam uma nova tradicao entre os mais novos, que as aprendem e as vivem. O que para os adultos e ainda uma opcao, fruto em grande parte de um conflito com o tempo, impoe-se nas criancas como um habito, criando uma tradicao de fast-food e do que poderiamos intitular de fast-slow life, o jogo diario de contradicao entre a corrida sem tempo de atividades estabelecidas e o culto imposto de  sedentarismo, apoiado pela falta de espacos, seguranca e vigilancia para brincar. Tambem neste ambito o mercado satisfaz, preenchendo os tempos livres de forma segura e pratica, com programas televisivos, jogos eletronicos e recursos informaticos, criticados por muitos, mas, mesmo que inconscientemente, abracados pela hierarquizacao do tempo dos pais. E o mercado alimentar, presente, aproveita mais esta oportunidade para propor alimentos que se adequam a esta “rotineira” falta de tempo. Neste ambiente de oferta e procura, onde o mercado e o consumo sao apoiados pela escassez de tempo, ficam definidas as escolhas alimentares, fica definida uma alimentacao pouco saudavel, sem tempo, sem lugar, sem horas, onde predominam alimentos de risco, nocivos, densos em termos energeticos e pobres em nutrientes. As consequencias demonstram ser drasticas, vitimando a saude dos consumidores e com ela as proprias sociedades. Comprovam-no os numeros que traduzem a incidencia e a prevalencia de doencas cronicas nao transmissiveis, como a obesidade, as doencas cardiovasculares, a diabetes, alguns tipos de cancer e doencas osteoarticulares, doencas que a ciencia e a investigacao tendem associar aos novos estilo de vida e habitos alimentares. As nossas solucoes a escassez de tempo adoeceram-nos. Estamos doentes. Com este diagnostico, o mundo acordou do sono pesado onde cresceu este novo pesadelo, o fruto da globalizacao que se espalhou ate aos paises mais pobres. Ha consciencia do seu peso, e a Organizacao Mundial de Saude, ciente do problema, ja ha alguns anos que reune e discute evidencias cientificas e lanca os apelos e as diretrizes para combater este fardo mundial. Os estados respondem com medidas de acao preventiva e de combate. Surgem novas politicas, novos apoios e campanhas. Luta-se por uma alimentacao saudavel e pelo combate ao sedentarismo, tentando travar as consequencias dos anos de sono mundial. Faz-se bastante… ainda ha muito para fazer. Se o tempo e o solvente nas nossas solucoes, que os excessos rapidamente saturam e transbordam com consequencias tao graves para a nossa saude e da sociedade, ha que se abandonar os excessos e encontrar um novo soluto que nos encaminhe a uma solucao equilibrada no tempo. Nao podemos facilitar o tempo aceitando a velocidade oferecida com o “turbo” que cria entropia ao nosso desempenho, necessitamos sim de facilitar o desempenho no encontro do equilibrio da velocidade com o turbo que cria entropia ao tempo. Ha tempo para tudo. E faz-se mais do que urgente pensarmos sobre a distribuicao do tempo em nossas vidas e o quanto o mesmo pode ser consagrado a alimentacao, seja na escolha, na compra, no preparo e no consumo de  alimentos, uma vez que o tempo mostra ser um fator limitante da alimentacao saudavel e adequada.

 

Alda Jorge Rodrigues Alvim,

 

agosto de 2011. Nutricionista e mestre em nutrição pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, Portugal (FCNAUP), na qual coordena, atualmente, o projeto de promoção a uma alimentação saudável Amigos Hortícolas e colabora com o projeto ProGreens.