(15) 3527-1749 - fax: (15) 3527-1749
10 de Fevereiro de 2016 - Silvia P. Nascimento

CAMINHOS PARA UMA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL

Consumo de frutas e hortaliças

Nas últimas décadas, o au­mento no consumo de fru­tas e hortaliças vem sendo recomendado como base de uma alimentação saudável, prin­cipalmente em função dos efeitos protetores desses alimentos contra doenças crônicas não transmissíveis- DCNT (obesidade, câncer, diabetes mellitus e doenças cardiovasculares).
Em decorrência da comprovação do efeito desses alimentos sobre a saúde, já em 1991, o governo ame­ricano lançou o Programa 5 a Day For Better Health, criado pelo Natio­nal Cancer Institute (NCI), tendo por objetivo aumentar o consumo de fru­tas e hortaliças pela população. Esse programa foi definido como exemplo para diversos projetos em mais de 40 países, sendo reconhecido como uma importante estratégia de promoção do consumo de FLV (frutas, legumes e verduras).
No Brasil, o Programa 5 ao dia faz parte das recomendações do Guia Alimentar para a População Brasilei­ra, do Ministério da Saúde, o qual, na edição de novembro de 2014 apre­senta como base da alimentação os alimentos frescos – como frutas, car­nes, legumes e ovos – ou pouco pro­cessados – como arroz, feijão e frutas secas, recomendando evitarem-se os alimentos ultraprocessados.
Na ocasião de seu lançamento, o guia teve repercussão discreta na im­prensa brasileira, mas despertou aten­ção nos Estados Unidos, recebendo elogios de renomados especialistas na área de nutrição, conforme noti­ciado pela Agência Fapesp. Em seu blog Food Politics, Marion Nestle, professora da New York Universi­ty, afirmou que “as orientações são notáveis pelo fato de serem baseadas em alimentos que os brasileiros de to­das as classes sociais comem todos os dias e considerarem as implicações so­ciais, culturais, econômicas e ambien­tais das escolhas alimentares”. Mi­chael Pollan, professor da University of California em Berkeley, e autor de livros como Food Rules: An Eater’s Manual (2010) e In Defense of Food: An Eater’s Manifesto (2008), disse que “as novas diretrizes brasileiras são revolucionárias” por serem “or­ganizadas em torno de comida (e re­feições!), não em torno de nutrientes”. “Os Estados Unidos precisam seguir o exemplo do Brasil: parar de falar sobre nutrientes e começar a falar so­bre comida! Este é um documento de referência”, disse o endocrinologista pediátrico Robert Lustig, professor da University of California em San Fran­cisco, conforme reportado pela revista especializada World Nutrition.
O Brasil publicou seu primeiro Guia Alimentar em 2002, quando foi divulgado o Relatório sobre a Saúde do Mundo da Organização Mundial da Saúde (OMS), relatando a baixa ingestão de frutas e hortaliças como um dos cinco principais fatores de risco para as Doenças Crônicas Não Transmissíveis. Essa primeira versão do Guia brasileiro era destinada a crianças menores de 2 anos, mas no Guia Alimentar de 2006, foram pro­postas diretrizes alimentares para a população em geral.
Em 2004, durante a Assembleia Mundial de Saúde, da OMS, foi aprovada a Estratégia Global para a Promoção da Alimentação Saudá­vel, Atividade Física e Saúde – EG, com o apoio de 192 países, entre eles o Brasil. Visando reduzir as mortes e doenças em todo o mundo, uma das principais recomendações da EG é voltada ao consumo de frutas e hor­taliças. No Brasil, durante a primeira reunião intersetorial de instalação da EG, foram estabelecidas três grandes prioridades de foco das políticas pú­blicas: a iniciativa ao aumento do con­sumo de frutas e hortaliças; a regula­mentação do marketing dos alimentos infantis e a promoção da alimentação saudável no ambiente escolar.
Em seguida outras ações foram realizadas no âmbito do Conselho Nacional de Segurança Alimentar – CONSEA e, em 2009 realizou-se em Brasília o 5º Congresso Pan-America­no de Incentivo ao Consumo de Frutas e Hortaliças, tendo como tema princi­pal a promoção da saúde, a partir da ênfase na construção de um modelo de consumo de alimentos saudáveis e produzidos de forma sustentável, reu­nindo diversas áreas e setores cujas ações são determinantes da qualidade de vida e da saúde da população.
Apesar das ações do Governo vi­sando incentivar a alimentação sau­dável, dados da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Te­lefônico (VIGITEL, 2014) mostram que apenas um quarto da população brasileira (24,1%) consome a quanti­dade de frutas e hortaliças recomen­dada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 400 g/dia, em cinco ou mais dias da semana. Esse consu­mo é ainda menor entre os homens, com índice de 19,3% e maior entre as mulheres, com 28,2%.
Visando incentivar especialmen­te o aumento do consumo de frutas, legumes e verduras foi desenvolvido, o livro Alimentos Regionais Brasileiros. A intenção é proporcionar à população o conheci­mento das mais variadas espécies de frutas, hortaliças, leguminosas, tu­bérculos, cereais, ervas, entre outros existentes no país.
Aliado ao conhecimento sobre a diversidade de espécies nativas e seus usos culinários, conforme apre­sentado no livro em questão, faz-se necessário também facilitar o consu­mo desses alimentos, os quais, mui­tas vezes, requerem várias operações pré-consumo, como por exemplo, descascamento, corte, lavagem, sani­tização. A menor disponibilidade de tempo para o preparo das refeições, assim como o aumento do número de pessoas que vivem sozinhas (merca­do single) também contribuem para o aumento do consumo de alimentos processados em detrimento dos fres­cos, que requerem maior tempo de preparo.
Nesse contexto, os alimentos mi­nimamente processados mostram­-se como uma solução para várias das questões apresentadas, uma vez que, facilitando o consumo, podem favorecer a ingestão de vegetais, contribuindo com a promoção da saúde. Além disso, a produção des­ses alimentos traz outras vantagens para a sociedade, quando possibilita minimizar o desperdício que já soma proporções absurdas, de 1,3 bilhões de toneladas de alimentos segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, 2015). Os dados do informe O rastro do desperdício de alimentos – impac­tos nos recursos naturais, da FAO, revelam que 46% desse desperdício ocorre nas etapas de processamento, distribuição e consumo.
Ao proporcionar alimentos já des­cascados, cortados e/ou fatiados, o processo mínimo promove maior aproveitamento dos alimentos, quan­do possibilita aproveitar produtos que, em função do tamanho, forma ou defeitos, seria descartado pelo mercado consumidor. Reduz ain­da o desperdício quando permite ao consumidor adquirir apenas o que irá consumir, sem ter que comprar uma quantidade pré-estabelecida (1 cabeça de repolho ou 1 abacaxi por exemplo).
Os produtos minimamente pro­cessados trazem vantagens também para o produtor, já que agrega valor a sua produção; consequentemente, acaba por gerar maior custo de ob­tenção, conforme demonstrado no estudo publicado na seção Destaque desta edição, entretanto, apesar do seu custo, para os serviços de ali­mentação, permite maior racionali­zação do tempo, menor número de funcionários, menor espaço para armazenamento e para áreas de pré­-preparo, além de reduzir o lixo e o consumo de água.
Trata-se, portanto, de um mer­cado em expansão, com vantagens para toda a cadeia produtiva, mas há ainda muitos desafios a serem vencidos, como a falta de uma re­gulamentação específica para o segmento; o uso de tecnologias que garantam a segurança e longevidade desses produtos; os gargalos logís­ticos; a qualificação profissional, entre outros. Será fundamental para o desenvolvimento desse mercado, a ação conjunta de todos os envol­vidos no processo, a fim de facilitar o acesso desses produtos à popula­ção, favorecendo a maior ingestão de FLV e, assim, contribuir com a saúde dos brasileiros.
Sílvia Panetta Nascimento
Editoria científica Higiene Alimentar
Faculdade de Tecnologia de Itapetininga