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28 de Fevereiro de 2018 - José Cezar Panetta

ALIMENTOS PARA AS PRÓXIMAS DÉCADAS: O QUE NOS RESERVA O TEMPO E A TECNOLOGIA?

276-277 Jan-Fev 2018

O tempo e o alimento têm balizado, entre outras va­ráveis, a vida do homem no planeta, marcando sua evolução e frustrações, ao longo dos séculos. Desde as primei­ras sedentarizações humanas, ocorri­das no Egito, na Babilônia e na Chi­na, bem antes da era cristã, houve a necessidade de um conhecimento mais profundo do tempo, a fim de melhor administrá-lo, no sentido de planejar o plantio, a colheita e a dis­tribuição dos alimentos. Afinal, essa misteriosa entidade, que ao homem foi permitida apenas a medição, tan­to que o nosso Drummond rotulou de gênio quem conseguiu “fracioná-lo” e, assim, “industrializar a esperan­ça”, nos cerca diuturnamente, nos acompanha em tudo o que fazemos.
Mas é sobre o alimento e a ali­mentação que mais interfere no tem­po. Se é verdade que a produção, a industrialização e a distribuição de alimentos exige tempo suficiente e precioso para acontecer, é mais verdade ainda que o homem condi­cionou sua alimentação às disponi­bilidades de tempo e, mais verdade ainda, que hoje se vive numa socie­dade em que o tempo domina todas as ações, das mais simples às mais complexas.Em síntese, enquanto nos primórdios do homem sobre a terra o tempo era consumido procurando alimento para a sobrevivência, a tec­nologia de produção permitiu que a alimentação passasse a ocupar uma posição mais segura, mais aprazível, permitindo ao homem se dedicar a outras atividades, embora passasse a alimentação a sofrer influências da própria sociedade, como a religião, a cultura, a economia, a política, e tan­tos outros fatores.
E a que ponto chegamos, com o tempo e a tecnologia até hoje empre­gados? No dizer de especialistas, a uma alimentação que é a resultante de um mixerde culturas, puras e adul­teradas, provenientes de sociedades que evoluíram para a globalização, num processo integrativo, mas mui­tas vezes conflituoso. Os antropolo­gistas costumavam reconhecer, mas muito mais agora, que os movimen­tos migratórios são agentes de alte­rações alimentares, quer na culinária, quer na dieta, sempre modernizando e aculturando. Passou o tempo (esse ente inexorável!) e sucederam-se a divisão social do trabalho entre ho­mens e mulheres, a associação en­tre saúde e alimentação, o núcleo familiar como proteção social, o prestígio da alimentação familiar, a necessidade de integração da mulher ao mercado de trabalho, mormente durante a primeira e segunda guer­ras mundiais. Mas a mulher fora do lar provocou o declínio do modelo tradicional de família e levou a uma nova estrutura, na qual o tempo dedi­cado às tarefas domésticas tornou-se menor, influenciando diretamente o tempo que o homem destinava à ali­mentação.
Entretanto, as mudanças dos hábi­tos alimentares não devem ser atribu­ídas unicamente aos fatos elencados. Na verdade, a ascenção crescente da indústria, da ciência e da tecnologia, e do mercado consumidor no século passado, traduzidos pela produção em escala de alimentos, no uso da biotecnologia, no desenvolvimento de novos materiais de embalagem, na adequação dos meios de transpor­te e conservação e, acima de tudo, nas novas concepções de gestão da qualidade, segurança e certificação dos alimentos, foram fatores pri­mordiais para cristalizarem um novo conceito de alimento e alimentação. Isto tudo num mundo globalizado, no qual hierarquizamos o tempo para cada atividade, dedicamos um mínimo dele para o prazer da nossa alimentação e em que prestamos um culto soberano à velocidade.
No limiar de uma nova década, o que esperar do futuro, em relação à produção e ao consumo de alimen­tos? Primeiro, a constatação de que a escassez de alimentos continuará, in­felizmente, para os países sem recur­sos para produzi-los ou importá-los, uma vez que há muito tempo se com­provou ser este um problema mera­mente econômico, num mundo tec­nificado e globalizado. Segundo,os países compradores serão cada vez mais exigentes com a qualidade e a segurança higiênica e sanitária dos alimentos adquiridos. Terceiro, os países aptos a produzi-los, além da competição mais renhida que deve­rão enfrentar, estarão sujeitos a no­vos desafios para a produção desses alimentos, particularmente relacio­nados ao bem-estar animal, à sus­tentabilidade e à defesa do meio am­biente. É sempre alentador imaginar que a tecnologia buscará as respos­tas para estes desafios. A incógnita é saber se tais respostas chegarão no tempo adequado.
Mas, acima de tudo, o que fazer para frear as escolhas alimentares incutidas à sociedade pela chama­da “escassez de tempo”? Na vida acelerada de hoje, o mercado propor­ciona satisfação com refeições rápi­das, nutricionalmente pobres e densas em calorias, ignorando os aspectos sociais e emocionais da alimentação, com repercussões visíveis à saúde. O reconhecido aumento da prevalência da obesidade e de um grande número de doenças crônicas não transmissí­veis, a ela associadas, como diabetes e doenças cardiovasculares é, atu­almente, consequência direta dessa escolha. A ingestão automatizada de alimentos, sem ritmo, sem controle, sem horário, sem prazer, altera aspec­tos fisiológicos do indivíduo, como a saciedade e o apetite, trazendo-lhe inúmeros transtornos à saúde.E o cír­culo se fecha com ofertas vistosas, acessibilidade, divulgação dirigida, publicidade e marketing, vitimizando crianças, adultos e idosos (e a própria alimentação saudável!). O resultado são os preconceitos alimentares, res­ponsáveis por impor a restrição de de­terminados alimentos, sem qualquer base científica, ditada apenas pela po­pularidade, pelo “modismo”.
Agora, não nos esqueçamos que tudo se originou da percepção de “es­cassez de tempo” e da necessidade de hierarquizar as inúmeras ativida­des humanas, levando à depreciação do ato de se alimentar corretamente. O que fazer, portanto, se os modelos alimentares são os mesmos no mundo todo, incluindo países desenvolvidos e em desenvolvimento, se as condi­ções socioeconômicas dos países não demarcaram a diferença, se a globali­zação levou às alterações de estilo de vida e de alimentação a todos, fundin­do cultura e aculturação, se o padrão alimentar generalizou-se e o tempo é o mesmo para todos? Fazem-se neces­sárias novas políticas de produção de alimentos, que reformulem e reestru­turem o tempo, de modo não somente de garantir a sobrevivência, mas de forma a devolver ao homem o prazer pela alimentação, aquele prazer sem culpa, sem medo, sem pecado. As sociedades já começam a responder com medidas de prevenção à saúde das populações, buscando novas es­tratégias que atendam aos anseios do homem moderno. Semeiam-se já, em várias partes do mundo, políticas de reorganização urbanística, a fim de diminuir o sedentarismo e limitar o acesso às ofertas vistosas da restau­ração fast food, recorre-se à fortifi­cação de alimentos para enfrentar carências nutricionais, financiam-se investigações no sentido de encon­trar respostas alimentares adequadas, atua-se, enfim, em nível de educação e intervenção alimentar das popula­ções.
Tudo isso, porém, será suficien­te para enfrentar às demandas das próximas décadas? Por certo, não. Será preciso ainda atentar para as produções primárias de alimentos, no sentido de que sejam seguras, nu­tricional, higiênica e sanitariamente; de que a industrialização e a distri­buição não elevem demasiadamen­te os preços dos produtos finais; de que sejam acessíveis às populações, mormente as de baixa renda; de que respondam aos anseios éticos das po­pulações e respeitem suas culturas. Com certeza, a tecnologia dará suas respostas e, com um pouco de sorte, no momento certo. Será preciso que a indústria reformule sua conduta em relação a algumas questões e o pró­prio homem se conscientize de que uma grande parcela de responsabili­dades cabe a ele.
À indústria caberá rever alguns processos de produção e, com isso atender, de modo definitivo (e não paliativo), os anseios do consumi­dor quanto a ética de produção de alguns produtos, como a produção de ovos de consumo (galinhas pre­sas em gaiolas até a morte), de suí­nos (proibição de gestação em gaio­las), de frangos (proibição de altas densidades de animais), afinal tudo o que possa atentar contra o bem­-estar dos animais de produção, com a sustentabilidade e com a manuten­ção da saúde do ambiente. Do ho­mem, espera-se um mudança geral de atitudes em relação ao alimento e ao tempo: 1) que se conscientize da realidade de que a alimentação não é somente um fator de sobrevivência mas, antes de tudo, de um prazer, e que sua saúde depende desse concei­to; 2) que use a solidariedade não so­mente nas palavras mas, sobretudo, nos atos com o seu próximo, mor­mente quando este seja carente de alimentos; 3) que evite o desperdício no seu dia-a-dia (afinal, desperdiçar alimento não é somente responsabili­dade da indústria e do campo, quan­do não conseguem estocar, conservar ou colher corretamente, mas é tam­bém do consumidor quando devolve alimento no prato, por ter se servido exageradamente); 4) que prestigie o pequeno produtor rural, a pequena indústria rural, pois são elos impor­tantes da grande cadeia produtora de alimentos. Estará com o governo a responsabilidade de fiscalizar esta pequena indústria e permitir que fun­cione, desde que cumprido o mínimo necessário no que respeita às condi­ções higienicossanitárias. (Baseado em “O homem, a sociedade, o tempo e a alimentação”, de Alda Jorge Ro­drigues Alvim e Maria Daniel Bar­bedo Vaz Ferreira de Almeida, da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, Portugal; e de Maria Clara Pignatari Rosas Calvi Rosa, Renata RagoFrignani e Juliana de Toledo Grazini dos Santos, da Verakis – Me­diação da Ciência da Nutrição, Paris, França.)
José Cezar Panetta
Editor da Revista Higiene Alimentar
Professor titular aposentado da Facul­dade de Veterinária da USP
jcpanetta@higienealimentar.com.br