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30 de Abril de 2018 - José Cezar Panetta

A PRODUÇÃO DE ALIMENTOS E OS DESAFIOS DA SUSTENTABILIDADE.

278-279 Mar-Abr 2018

É antiga a preocupação dos produtores de alimentos em relação a sua qualidade intrínseca e aos riscos que podem acarretar à saúde do consumidor, quando os cuidados básicos de caráter higiênico e sani­tário deixam a desejar. Agora, outra responsabilidade se impõe: a de pro­duzir alimentos sem agredir o meio ambiente, o que significa produzi-los de maneira limpa, salvaguardando a natureza, economizando água, utili­zando matérias-primas e processos saudáveis e, sobretudo para os pro­dutos de origem animal, respeitando o bem-estar dos animais fornecedo­res de matérias-primas e produtos alimentares. Encontram-se, portanto, os países produtores de alimentos, como o Brasil, diante de um grande desafio: a necessidade de continu­ar produzindo alimentos para uma população com franca tendência de crescimento (pelo menos até 2050, segundo dados da Organização Mun­dial da Saúde), mas terão que fazê­-lo mediante a nova filosofia exigida pela sociedade, respeitando o ho­mem, o animal e o meio ambiente. Ou seja, acelera-se e se torna irrever­sível o modo de produzir alimentos de forma, não somente justa, mas, acima de tudo, ética.
Assistiu-se nas últimas décadas, incontestavelmente, a um crescente aprimoramento da qualidade dos ali­mentos, especialmente no que tange às suas condições higienicossanitá­rias. Programas de rastreamento das cadeias de produção garantiram a melhoria da qualidade dos alimentos produzidos, levando o consumidor a contar com produtos certificados quanto à sanidade e aos processos utilizados na produção. Tal evolução deveu-se, não somente ao esforço das empresas para qualificarem me­lhor os meios de elaboração mas, também, aos governos, que se ape­trecharam intensamente para tornar mais rigorosas a legislação e a fis­calização dos alimentos e, ainda, ao consumidor que, mais informado, tem reclamado, por meio de serviços privados e oficiais que o protegem, exigindo seus direitos em receber alimentos de qualidade e a um preço justo.
Nesse contexto, o Brasil mostra uma condição, no mínimo, parado­xal: é o quarto maior produtor mun­dial de alimentos, mas desperdiça cerca de 32 milhões de toneladas de tudo que produz, por ano. Tal quan­tidade de alimentos seria suficiente para alimentar 25 milhões de pesso­as, no mesmo período. As perdas, infelizmente, não se resumem ape­nas ao valor dos alimentos não con­sumidos, que representam tempo, dinheiro e energia desviados, mas vão além: acabam nos aterros sani­tários, poluindo o ambiente e sendo uma das principais fontes de gases do efeito estufa.
Outra faceta desse paradoxo mos­tra um país dividido em duas situa­ções: uma, de avanço tecnológico, contando com uma moderna indús­tria de alimentos, na qual se trabalha com todo o rigor higienicossanitário e que conta com os mais eficazes pro­gramas de controle de qualidade e, outra, lamentavelmente, que não dis­põe dos mínimos recursos para a ela­boração de alimentos qualificados. Apenas para citar um exemplo desse paradoxo, basta lembrar a posição da indústria de carne, hoje, no Brasil: ao lado de uma empresa de ponta, do­tada dos mais avançados sistemas de controle e responsável pela posição do país como um dos principais ex­portadores de carne bovina do mun­do, ainda permanece vivo, paralela­mente, um outro tipo de indústria, às margens da lei e atentando contra a saúde pública, representado pelos abates clandestinos, que se conver­teu em verdadeiro mercado paralelo e ilegal. Convive-se, pois, na área de alimentos no Brasil, com duas reali­dades bastante diferentes, o avanço e o atraso.
O avanço, entretanto, pode criar problemas que não existiam ou, en­tão, eram simplesmente inaparentes, mas que o abuso tecnológico acabou por escancará-los. É o que se costu­ma referir, hoje, por conflito entre a produção de alimentos, a sustentabi­lidade e a saúde do consumidor ou, como afirma Alejandro Schejtman (Abastecimento e Segurança Alimen­tar, Unicamp, 2000), “ao examinar o problema da sustentabilidade dos sistemas alimentares, deve-se men­cionar que alguns apresentam efeitos ambientais negativos, entre os quais: um padrão de modernização que so­bremecaniza, que sobreintensifica o uso de substâncias químicas, que é altamente intensivo no uso de ener­gia e que, em algumas regiões, im­prime acelerada deflorestação, para implementar uma pecuária extensiva ou explorar a floresta nativa”.
A esta argumentação, outras são constantemente acrescentadas: 1 – o uso intenso de água na agricultura e para a produção geral de alimentos; 2 – transtornos e doenças humanas advindos do abuso de alimentos in­dustrializados, como a obesidade; 3 – a perda de qualidade dos alimen­tos pelas injunções e necessidades da própria industrialização: é o caso, por exemplo, do aumento dos prazos de validade, para que possam chegar em tempo hábil aos centros consu­midores, mas à custa da utilização de aditivos químicos; 4 – a reação da população à maneira como são pro­duzidos alguns alimentos, subme­tendo os animais a sofrimentos que poderiam ser evitados: é o caso das aves de postura presas em gaiolas, ou frangos de corte “aprisionados” nas granjas ou, o que se acostumou chamar de “bem-estar dos animais de produção; 5 - a participação da pecu­ária para o aquecimento global; 6 – doenças emergentes e re-emergentes transmitidas pelos alimentos; 7 – o recrudescimento de algumas zoono­ses de origem alimentar; 8 – a con­taminação dos alimentos em regiões desprovidas de saneamento básico, com especial referência à qualidade da água e à disponibilidade de lixo e esgoto, etc. etc.
Está, portanto, definitivamente colocado o conflito: houve evidente evolução das tecnologias de produ­ção e industrialização dos alimentos mas, com ela, foram criados, também, alguns problemas, antes inexistentes ou que não tinham a significância que hoje têm. Quando nos debruça­mos sobre este assunto, parece-nos que o conflito é recente. Na verdade, ele veio se agravando nos últimos anos, pois há quase 15 anos, Gordon Conway, ecologista especializado em questões agrícolas, com vasta experiência em programas de desen­volvimento na Ásia e na África, já alertava: “Precisamos ‘planejar’ me­lhores plantas e animais, desenvol­ver (ou redescobrir) alternativas para fertilizantes e pesticidas inorgânicos, melhorar o manejo do solo e da água e realçar oportunidades de renda para os economicamente desfavorecidos, especialmente as mulheres; tudo isso depende basicamente de estabelecer parcerias genuínas entre pesquisa­dores e homens da terra, que podem oferecer contribuições inestimáveis para a criação e aplicação de novas técnicas” .
Outro aspecto que estimula esse paradoxo é que a produção de ali­mentos tem como fator limitante a sua própria qualidade, uma vez que grandes contingentes alimentares são retirados do mercado em virtude de suas impropriedades e, mesmo, ame­aças que podem oferecer ao ingestor.
O Índice Global de Segurança Alimentar (disponível para consulta e download no site http://foodsecu­rityindex.eiu.com) mede os riscos e fatores que norteiam a segurança ali­mentar, incluindo acessibilidade, dis­ponibilidade, qualidade e segurança. Em acessibilidade, avalia-se o gasto das famílias com alimentação, a pro­porção da população abaixo da linha da pobreza, o produto interno bruto per capita, a presença de programas de segurança alimentar, as tarifas de importação agrícola e o acesso dos produtores rurais a financiamentos. A disponibilidade confere a oferta sufi­ciente de alimentos, gastos públicos em pesquisa na agricultura, infraes­trutura agrícola, volatilidade agrícola e instabilidade política. E no âmbito da qualidade e segurança determina­-se a diversificação da dieta, padrões nutricionais, biodisponibilidade de micronutrientes, qualidade proteica e segurança dos alimentos.
Pelo exposto, é patente a neces­sidade de se aumentar a produção de alimentos, num futuro próximo, para uma população crescente. Mas esse aumento deve se dar não só em quantidade, mas em qualidade e não agredindo o meio ambiente e os pró­prios animais de produção, para os quais a sociedade clama por um mí­nimo de bem-estar. A este respeito, merecem consideração as observa­ções do geneticista animal John Hod­ges, professor das Universidades de Cambridge (Inglaterra) e Colúmbia Britânica (Canadá), que tem partici­pado, através da FAO, de programas de melhoramento genético de reba­nhos e, como especialista em agribu­siness, produção de alimentos, ética e meio ambiente, tem insistido em mudanças no modelo de produção de alimentos, já que considera exau­rida e ameaçada a produção intensi­va, como praticada nos dias de hoje. Vale a pena meditar sobre as suas co­locações, que aparecem a seguir.
Segundo Hodges, a resposta mais comum para o aumento da produção de leite, carne e ovos é uma inten­sificação ainda maior da produção animal, além do estabelecimento de unidades de produção intensiva em países em desenvolvimento. O siste­ma de produção intensiva desenvol­vido no mundo ocidental, ao longo dos últimos 50 anos, foi notoriamen­te bem-sucedido para o aumento da quantidade e redução dos preços do leite, carne e ovos. Este sistema é ba­seado na criação de grandes unidades produtivas dependentes de altos in­vestimentos em capital, combustível, produtos químicos e recursos tecno­lógicos. Mas as consequências eco­nômicas, sociais e ambientais nega­tivas se multiplicaram, assim como os efeitos sobre a saúde os animais, aves e seres humanos e sobre o clima. Sabe-se que este sistema intensivo é insustentável. Uma vez que a cadeia de produção de alimentos é cada vez mais globalizada, a produção inten­siva de alimentos é uma ameaça para bilhões de pequenos produtores do mundo todo que não podem pagar os custos desta intensificação.
O impressionante relatório patrocinado pela ONU e Banco Mun­dial é um argumento poderoso em fa­vor de novas formas de se aumentar a segurança alimentar mundial (Inter­national Assessment of Agricultural Science and Technology for Deve­lopment, IAASTD, 2008). Quatro­centos cientistas agrícolas do mundo todo examinaram os resultados das melhorias agrícolas em países em desenvolvimento publicados em pe­riódicos mundialmente respeitados ao longo de um período de quatro anos. Eles observaram que, em geral, a transferência dos métodos ociden­tais de criação intensiva não levou à habilitação dos pequenos produ­tores. Este estudo também demons­trou que as colheitas geneticamente modificadas, em média, não têm uma produção mais alta por hectare: sua popularidade é devida à redução nos custos de pulverização.
O relatório mostra que a produção e segurança mundial de alimentos podem ser substancialmente aumen­tadas pelo auxílio aos pequenos pro­dutores e criadores de forma a me­lhorar seus métodos tradicionais por meio de recursos disponíveis local­mente. Eles consideram que planos de pesquisa e desenvolvimento para estes pequenos produtores são ur­gentes a fim de levar sua produção a patamares mais altos e ao seu desen­volvimento, para que, com a melhora da sua produção, também melhore a qualidade de vida das comunidades rurais pobres e a disponibilidade de alimentos para venda local. É inte­ressante notar que estas propostas também se aplicam a países desen­volvidos onde ocorre um aumento da demanda dos consumidores por alimentos orgânicos e produzidos localmente. Estes produtos são, é claro, um pouco mais caros do que aqueles produzidos em larga escala em sistemas intensivos.
Agora, como enfatiza Hodges, “deve-se forçosamente perguntar: será que os consumidores estão prontos para pagar mais pelo leite, carne e ovos produzidos de maneira sustentável? Se é verdade que a pro­dução intensiva não pode solucionar o problema da alimentação mundial sem enormes consequências nega­tivas, então só existe uma resposta séria para esta pergunta, que também se aplica às mudanças climáticas: será que as pessoas querem reduzir e modificar o seu modo de consumo para evitar o aquecimento global? A sustentabilidade sempre vai custar mais do que a não-sustentabilidade, mas vale a pena. Podemos parecer mais pobres em alguns itens não es­senciais, mas no final do dia, ainda vamos estar por aqui”.
Seria exagero afirmar, como Hod­ges, que estamos caminhando rapi­damente para a insustentabilidade da produção de alimentos? São palavras dele: “Alguns céticos duvidam de que estamos caminhando para o de­sastre. Eles argumentam que o sis­tema intensivo pode ser expandido indefinidamente para produzir quan­tidades de alimento cada vez maiores ou mesmo a preços cada vez mais baixos. Mas grandes líderes mundiais de todas as áreas nos dizem constan­temente – não há escolha – estamos em rota de colisão com a realidade. Não quero negar os perigos e já es­crevi mais detalhadamente sobre isto (World Poultry Science Journal, Vol 65, março de 2009, páginas 5-21). Meu objetivo é estimular a discus­são, abrir nossas mentes, ampliar nossa visão, alongar nossa escala de tempo, fortalecer fundamentos es­senciais - a assim nos levar a pensar além do nosso paradigma habitual.”
São Paulo, abril, 2018.
José Cezar Panetta
Sílvia Panetta Nascimento Marcelo Arruda Nascimento
Editoria Científica da Revista Higiene Alimentar, São Paulo.
     www.higienealimentar.com.br